O princípio inevitável da impermanência

Todo ponto de vista é a vista de um ponto! Por João Lucon

Todo ponto de vista é a vista de um ponto! Por João Lucon

“Se não há esperança cega, também não há decepção. Se a pessoa sabe que tudo é impermanente, não se apega, e se não se apega, não pensa ter ou faltar e portanto, vive plenamente.”                       
Dzongsar Khyentse Rimpoche

 
Se você não apresenta a tendência para se habituar com a visão de que a vida é como uma fábula, examine, ao menos enquanto ainda está vivo e saudável, não se apegar demais aos seus projetos, sonhos e esperanças. Minimante esteja preparado para a possibilidade de dar tudo errado.
Tudo o que considera ser bom na sua vida, em um piscar de olhos, poderá tornar-se diretamente o oposto; tudo o que estima pode, subitamente, deixar de ter valor. Persistir na convicção de que tudo dará certo só servirá para alimentar com lenha a fogueira da decepção.
Na vida cotidiana há perdas e decepções e precisamos deixar que as crianças vivenciem essas experiências. Pais e/ou responsáveis tendem a ignorar muito os pequenos reveses.
Ao substituir o peixinho morto do seu filho e esperar que ele jamais perceba a troca é desperdiçar uma oportunidade para que ele vivencie uma dor menor antes que se depare com uma dor maior, como a perda de um ente querido.
É possível dialogar sobre perdas e mudanças quando: as folhas caírem das árvores, um alimento apodrecer, um divórcio ou uma mudança ou saída de um emprego acontece, um brinquedo quebra ou um balão estoura; quando se perde um livro, um celular ou uma bola. Nossas ações humanas não são perfeitas a todo momento, e precisamos deixar que as crianças vivenciem seus sentimentos associados a essas perdas e decepções.
Entretanto o desenvolvimento cognitivo, segundo o psicólogo do desenvolvimento Jean Piaget, ocorre por etapas: nas crianças com idades entre dois e sete anos, é predominante o “pensamento mágico”, enquanto que as crianças de sete a onze anos são muito lógicas e concretas no pensamento, mas, ainda assim, você pode dizer a verdade.
O ponto principal é que a tentativa de blindar as crianças dos sentimentos de perda e decepção apenas os afasta do princípio da realidade e da impermanência de todas as coisas. A vida é transformação e movimento, tudo é impermanente, nada permanece da mesma forma.           
Não elimine as experiências de perda e decepção dos seus filhos, deixe que eles vivenciem a impermanência. Da próxima vez que houver uma perda ou uma decepção ouça com atenção e valide aquele sentimento (preocupação, raiva, tristeza, etc). Provavelmente seu filho superará o que aconteceu e irá se sentir completamente ouvido.
As crianças não sofrem porque as coisas são impermanentes: sofrem porque as coisas são impermanentes e acreditam que elas são permanentes, porque pais e/ou responsáveis, embora saibam que nada é eterno ou imortal, preferem não expor a realidade da impermanência aos seus filhos.
A impermanência é um princípio inevitável a vida.
Tudo muda o tempo todo e nada permanece igual para sempre, queiramos ou não. Que essa impermanência inevitável da vida seja também uma oportunidade para a construção de permanências necessárias, traduzidas em valores, escolhas ou riscos para seus filhos e que aprendam, ficando iguais e, ao mesmo tempo, distintos em relação a vida.

 
Por João Lucon
Professor S.c. D. S.c. M., Gestor Escolar
Budista, Maratonista, Triatleta.
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