Trânsito desumano

Por Helinho Queiroz

Em junho próximo, completo 49 anos de habilitação no trânsito.
Tempos atrás, após completar 18 anos de idade, eu não via a hora de poder dirigir o único veículo da família, um Fuscão 1970, azul celeste, que o meu pai havia adquirido
para uso comercial. Eu já estava querendo trocar a bicicleta pelo carro.
Buscar a namorada na escola, ou levá-la para comer uma pizza, era um sonho prestes a se tornar uma doce realidade.
Namorar sobre quatro rodas, na época, era sinônimo de status.
Aos sábados, além de deixar o carro limpo por dentro e lustroso por fora, eu também caprichava na seleção musical (romântica, sempre), através da fita cassete de 60
minutos, pois, as de mais tempo eram engolidas pela engrenagem do toca-fitas.
Sinônimo de finais de semana proveitosos e felizes.
Dirigir pelas ruas da cidade, com transito de não tantos veículos, era exultante.
Estacionar o carro defronte de casa, com a porta destrancada e com o vidro aberto, era uma realidade.
Motor ligado, cheirando gasolina pura, sequer imaginava que um dia viesse cheirar a álcool.
E quando este dia chegou, o encanto acabou.
O romantismo no trânsito “se fini”.
Dirigir deixou de ser algo exultante para se transformar em extrema necessidade, aliada a mera exibição de vitrine ambulante.
As mesmas ruas estreitas da cidade de ontem, se transformaram em grandioso palco, onde se confrontam velozes e furiosos.
Também se inclui a este cenário dantesco, motos com os seus escapamentos abertos e barulhentos com a nítida função de “ô abre alas que eu quero passar”.
Pudera! Uma urbe sem guarda de trânsito, não poderia dar noutra coisa: cada qual fazendo a sua própria lei.
E a pior das consequências, além é claro, as tragédias, um trânsito desumano.
O primordial no trânsito, a segurança, acabou sendo colocada para escanteio.
E, antes que o caos se instale, por conta deste ambiente hostil, já estão providenciando as lombadas eletrônicas
Os velozes e furiosos, obviamente, já estão chiando.“Fascistas, comunistas, corruptos, racistas, homofóbicos,fomentadores da indústria do trânsito…”.
E graças a esta balbúrdia toda, de difícil compreensão, confesso ao caro leitor que já perdi o gosto pelo volante. E se eu pudesse, voltaria para o amor antigo: a bicicleta.
O pior é que não existe volta ao passado.


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