Todo ponto de vista é a vista de um ponto! Por João Lucon

Todo ponto de vista é a vista de um ponto! Por João Lucon

“Quando caímos no chão nos machucamos, mas
também precisamos confiar no chão para
conseguirmos levantar.”
(Kathleen McDonald, How to Meditate)

Atualmente a maior parte dos pais e responsáveis apresentam um comportamento padrão: resolver de conflitos e desafios de seus filhos, em vez de apresentar às crianças os limites e caminhos necessários para se tornarem autônomos na resolução de seus próprios problemas. Os pais se esforçam de maneira heroica para que as crianças
passem ilesas pela infância, porque acreditam que grande parte de sua responsabilidade é confortar os sentimentos dos filhos e alegrá-los.
Alguns pais acreditam que estabelecer e determinar limites poderá deixar seus filhos perturbados. Outros oscilam entre estabelecer limites para depois removê-los e confortar a criança, atitude ambígua que atrapalha o processo de construção das habilidades para resolução de conflitos, porque as crianças são resgatadas das suas emoções e do enfrentamento das consequências.
Toda disciplina é autodisciplina, mas se vem de fora é dominação. É óbvio que as crianças não nascem com autodisciplina – ela é aprendida quando estamos conscientes das consequências ou quando vivenciamos as consequências – presentes da vida que orientam e guiam o comportamento.
Qualquer escolha que façamos, positiva ou negativa, tem um feedback. Semprehaverá uma resposta: se não fizermos a lição de casa, é possível que tenhamos um desempenho ruim na aula. Se não formos ao trabalho, podemos perder o emprego. Se tratarmos mal o nosso cônjuge/companheira(o), ele ou ela poderá optar por terminar o relacionamento.
Utilizar essa resposta do mundo – relação causa e efeito – é uma oportunidade para os pais, uma vez que significa que não devem intervir ou conduzir, mas permitir que o curso natural das coisas aconteça. Por exemplo: seu filho esqueceu o lanche, ele vai ficar com fome; seu filho esqueceu a blusa, ele vai ficar com frio; seu filho chutou a
parede, a marca estará lá para lembrá-lo de sua raiva. Nenhuma dessas consequências
coloca seu filho em risco.
Contudo, quantos pais se dedicam a eliminar as consequências naturais resultantes desses acontecimentos e ainda sentem-se frustrados por seus filhos não serem responsáveis? – Ao experienciar tanto o resultado natural quanto as consequências lógicas de suas escolhas as crianças desenvolvem a autodisciplina e internalizam que o comportamento tem consequências reais.
Embora os pais possam ser compassivos com os sentimentos de seus filhos, não podem eliminar as consequências, porque neste caso, seus filhos não apreenderão a se autorregular. Permitir que seus filhos enxerguem suas atitudes oportuniza que
experienciem as consequências e adaptem seus comportamentos.
Muitos pais e mães sentem-se cruéis quando apresentam consequências lógicas, porque as crianças ficam irritadas ao perder um privilégio. Outros pais interferem no desenvolvimento moral da criança quando se esforçam para eliminar consequências naturais inerentes à vida ao pedir a um professor que altere uma nota mais baixa,
tentando influenciar o treinador para que seu filho entre mais no jogo ou pagando uma fatura de cartão de crédito extremamente alta.
Todas as reações são compreensíveis, mas a vida é uma jornada com muitos obstáculos e remover esses obstáculos não ajuda a criança a se preparar para as pedras maiores. Antes que enfrentem problemas maiores, é fundamental que encarem conflitos na segurança do lar, com consequências preparadas para eles, sob a orientação e
supervisão dos pais.

João Lucon, Professor, Diretor Escolar, Químico, Budista, Corredor e Triatleta.
Instagram: @joaolucon