Desvalorizamos o que é nosso?

Por Alexandre Bertin, especialista em destilados
 

No universo das bebidas destiladas de alto valor (e até mesmo das bebidas em geral), um fenômeno cultural persiste: a supervalorização dos produtos importados em detrimento dos nacionais.
Existe um comportamento arraigado de considerar que marcas vindas do exterior são superiores, enquanto as nacionais e locais são relegadas a segundo plano.
Este comportamento reflete uma mentalidade antiga enraizada na sociedade, onde a origem estrangeira é associada automaticamente à qualidade e sofisticação. O imaginário popular muitas vezes alimenta essa percepção, amplificando a ideia de que o que vem de fora é sempre melhor.
No entanto, essa idéia desconsidera a riqueza e a qualidade das bebidas destiladas produzidas localmente. O Brasil, por exemplo, é lar de diversas destilarias de pequeno porte que produzem com excelência. Estas bebidas artesanais muitas vezes incorporam técnicas tradicionais, ingredientes locais e uma atenção meticulosa aos detalhes, resultando em produtos de alta qualidade e sabor excepcional.
É essencial reconhecer o papel fundamental dessas destilarias nacionais na mudança do paradigma do consumo de bebidas destiladas. Elas não apenas desafiam a ideia preconcebida de que o importado é sempre superior, mas também contribuem para a valorização da cultura e identidade local, além de gerar riqueza em sua área de atuação.
À medida que mais consumidores descobrem e apreciam as bebidas destiladas produzidas localmente, uma mudança gradual está ocorrendo no mercado. A demanda por produtos nacionais está crescendo, impulsionando um reconhecimento cada vez maior da qualidade e diversidade das destilarias brasileiras. 
No entanto, ainda há um longo caminho a percorrer para que a cultura de valorizar o importado sobre o nacional seja verdadeiramente superada. É necessário um esforço conjunto da sociedade, da indústria e dos meios de comunicação para promover uma apreciação genuína das bebidas destiladas produzidas localmente e desmantelar os estereótipos arraigados que perpetuam essa desigualdade. Temos inclusive que superar preconceitos que se encontram inclusive nos produtores que ainda resistem a legalizar sua produção, ação que joga contra essa mudança geral de comportamento do consumidor e do mercado.
Em última análise, ao valorizarmos as bebidas nacionais regulares e de qualidade, não estamos apenas apoiando a indústria local, mas também celebrando a riqueza da nossa própria cultura e identidade. É hora de reconhecer que o verdadeiro sabor da excelência não conhece fronteiras, mas pode ser encontrado em cada gota bebida produzida em solo brasileiro.