Todo ponto de vista é a vista de um ponto! Por João Lucon

Todo ponto de vista é a vista de um ponto! Por João Lucon

A jornada da vida é como uma trilha, um caminho rochoso que simboliza todos os desafios que enfrentamos no cotidiano – os conflitos com a família, os amigos, a escola ou as atividades fora de casa, ou simplesmente as dificuldades para lidar com a nossa oscilação diária de pensamentos e emoções. Às vezes, porém, ao andar por uma trilha, nos deparamos com obstáculos ainda maiores: uma perda, um trauma, um diagnśtico ou outro revés. A princípio, essas rochas, irregulares e as pedras afiadas parecem ser intransponíveis, mas, na verdade, oferecem uma gratificação imensa quando são contornadas com sucesso. A fim de percorrer nossos caminhos com graça, precisamos encontrar uma forma de superar os obstáculos com os quais inevitavelmente vamos nos deparar e as emoções que nos atravessam como um rio.

O sábio budista Shantideva, do século VIII, nos fala que podemos forrar com couro todos os lugares por onde pisamos, de modo a não cortarmos os nossos pés, ou podemos confeccionar nossos próprios sapatos para nos protegermos ao longo do caminho. A forma como os pais de hoje em dia circundam e superprotegem seus filhos, ocupados em poupá-los de qualquer desconforto. Infelizmente, a colocação dessa camada de couro torna nossos filhos mais dependentes e menos desenvoltos e impede o seu processo de amadurecimento emocional. Em vez disso, podemos criar um ambiente familiar que promova a confecção de sapatinhos, de modo que nossos filhos tenham os recursos internos e a resiliência emocional necessários para percorrerem a trilha de suas vidas e irem aonde precisam ir.

Os adolescentes, tenho visto muitos jovens que vivem em conflito encontrarem gratidão, autoestima e autodomínio para contornarem com sucesso os obstáculos de suas vidas. A solução não é remover ou suavizar as dificuldades e desconfortos de nossos filhos, mas, com compaixão, incentivá-los a ser corajosos – ensinando-os  a lidar com suas próprias pedras e rochas, e a ver suas contusões e arranhões com  um aprendizado para o amadurecimento. Se permitirmos que nossos conflitos nos ensinem, em vez de resistirmos e lutarmos contra eles, em cada obstáculo que enfrentamos haverá uma lição correspondente de crescimento. Esse é o processo de amadurecimento e de confecção de sapatinhos.

Observei que as crianças encontram alívio quando param de procurar uma saída, uma fuga ou um resgate por parte dos pais, e enfrentam com determinação seus problemas e obstáculos. Começam a se sentir capazes e desembaraçadas. No fundo, todos nós desejamos resolver nossos próprios problemas, pois é assim que crescemos mais sábios e mais confiantes na vida. No entanto, isso não acontecerá com a maior parte das pessoas se elas souberem que ainda há alguma proteção, uma saída, alguém para culpar ou alguém para resgatá-las. Embora a adversidade tenha mérito, ninguém de fato a busca voluntariamente.

Conviver com a bravura da mãe natureza proporciona lições indeléveis, pois a única rede segurança é a invetividade do grupo, cada indivíduo desafiado a resolver problemas, a ser resiliente e a trabalhar em conjunto. Embora nem sempre seja confortável, viver no natural faz com que a luz retorne aos olhos dos jovens e ilumine seus espíritos. Os indivíduos têm que enfrentar a natureza, submeter-se ao seu terreno e suportar seus padrões climáticos, seja um raio de sol ou uma tempestade feroz.  Em ultima análise, as crianças aprendem que a vida selvagem é simples – eles percebem sem dificuldade que não estão no controle e aprendem que obtêm da experiência aquilo que colocaram nela.

No entanto, a educação dos filhos é complicada. Há tantas bolas para fazer malabarismos ao mesmo tempo, tantas filosofias e perspectivas a se considerar, tantas emoções para se cuidar e tantas dúvidas. Os obstáculos são multifacetados, e as soluções, menos claras. É devastador, e então os pais tendem a lidar com tudo através da ação: assumir uma tarefa, ajustar, resolver e supercontrolar.

Ainda assim, acredito que a criação dos filhos pode ser muito mais fácil do que imaginamos. Não precisamos fazer tudo. Na verdade. “não fazer” permite que nossos filhos encarem as consequências naturais que ensinam lições muito mais persistentes e duradouras do que ficarmos resmungando e dando sermões. Por exemplo, quando uma criança se esquece de uma capa de chuva, de levar as roupas para o futebol ou mesmo do almoço, ela vai vivendo um desconforto temporário – mas não é o fim do mundo; ao contrário, é uma experiência de aprendizagem tangível. Não precisamos ser responsáveis por tudo. Podemos progressivamente colocar a responsabilidade nas mãos dos nossos filhos e também permitir que os problemas deles permaneçam no seu colo.

O contato com a natureza e a filosofia budista me ensinaram abordagens muito simples para o complicado problema da criação dos filhos nos dias de hoje. Menos é mais – esse é o caminho da educação que desenvolve a autonomia, a competência e a solidariedade. Vamos deixar nossos filhos resolverem seus próprios conflitos. Vamos sair da correnteza e descansar na margem do rio. Não estamos abandonando e não estamos ignorando  – estamos por perto – mas não estamos nos metendo em sua confusão. Nossos filhos nunca se tornarão desembaraçados ou resilientes enquanto resolvemos tudo por eles.

A confecção de sapatinhos é um processo para a vida toda para todos nós. Esse conceito estimula padrões saudáveis na relação entre pais e filhos, quer sejam aplicados quando a criança começa a falar ou depois que ele ou ela começa a se fechar e oferecer aos pais nada além do silêncio.

Confeccionar sapatinhos permitirá que os nossos filhos amadureçam como indivíduos e você irá equipá-los para atravessarem as trilhas com rochas irregulares e pedras afiadas de suas próprias vidas.

Texto inspirado e adaptado da obra

Brave Parenting: A BuddhistInspired Guide to Raising Emotionally Resilient Children

Autora: Krissy Pozatek


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